O barulho da torneira da cozinha sempre a irritara a vida inteira, sem saber porquê. Teimava em fechá-la com força para que aquela música irritante não voltasse ao seu inconsciente e ao seu ouvido, como um zumbido constante. Todos os dias ela se sentia como um poço de desejos furados, que não passavam de sonhos corroídos pela água que escorregava por ali todos os dias da sua curta vida.
Corria sempre pelos trilhos cheios de ervas daninhas e adorava saltar sobre as pedras. Passeava horas de bicicleta sem nunca se cansar e jogava às cortas sozinha… Há infortúnios da vida que vêm sem os querermos receber. Há uns anos, aquela cabeça leve e arejada respirava o ar de alguém que era mais do que um amor; um companheiro. Vida a dois é sempre complicada, mas não para ela. Ela tinha nascido para ter alguém, para ser dedicada por natureza. Só que, por vezes, quanto mais nos debruçamos sobre algo, mais o ritmo nos foge sob os pés, mais o barulho da torneira se confunde por entre o ruído das ceifeiras.
Nada mais do que a morte à nossa porta, nada menos do que voltar a ficar sozinho. Ela nunca mais voltaria a dormir ao lado de alguém, nunca mais o sorriso doce e pálido se esboçara para alguém. ‘Bom dia’, ainda murmurava às vizinhas. Mas não, aquele cheiro tradicional das casas de pedra absorvera-se como a água infiltrada nas gretas da casa. Cheirava sempre a pão e a madeira velha. As cadeiras nunca tinham sido antes envernizadas, de certo. No sótão, ouviam-se ruídos dos bichos a passearem-se como que as senhoras na avenida. Porque quereria ela ficar? Gostaria do pó no soalho, das janelas cheias de dedadas nos vidros, do calor insuportável do Verão, da loucura que a solidão lhe proporcionava?
Ela podia pegar nas malas e sair porta fora sem nunca mais voltar. Mas a pouca mentalidade que ainda lhe restava, teimava em prender-se ao desinteresse, àquela vida mesquinha de quem se contenta com pouco. Teria medo de deixar as visitas à campa nos domingos? Nunca lhe teriam dito que o cemitério não muda de residência? Ela podia voltar as vezes que quisesse, mas ela confessara para si mesma de que o hábito se torna mais apetitoso do que a própria palavra viver. Talvez fosse comodismo, que não a deixava ser oportunista.
Enquanto ela passava os dias sentadas numa cadeira, com um olhar perdido, e um sorriso guardado na palma das mãos fechadas, as outras falavam da vida alheia, inclusive da dela. Interrogava-se porque seria sempre a favorita das fofocas da aldeia. ‘Talvez devesse mesmo sair daqui’, ainda pensava. Mas os músculos contraiam-se e quase que se enrolavam às pernas das cadeiras velhas com cheiro a madeira podre. Ela tinha medo de tudo, não conhecia uma única cidade. Sabe lá ela o que é a liberdade. Julgava-se sábia, mas desconhecia o cheiro ao escape dos carros a soltarem mais e mais fumo. Aninhava-se apenas na cama e cantava baixinho como que a embalar-se. Passava dias nisto… A mobília já não tinha que limpar, a loiça era tão pouca e não havia mais nada que a pudesse tornar útil dentro daquele casario. Já se imaginava em velha a fazer tricô, ou talvez nem lá chegasse. Em todo este tempo, a sua cabeça estava desfeita entre choros consecutivos, ou em cantorias desalegres. Chegou a hora de crescer mais um pouco, mas o tempo passava por ela sem a ver. A sua simplicidade e ignorância tornava-a cada vez mais translúcida. Ela podia sair à rua, e juntar-se às banais coscuvilheiras, mas preferia passar os dias a agradar a Deus, a rezar e a preocupar-se em ser uma boa dona de casa, tal como mandam as tradições. Já nem pagava na renda, e o dinheiro que as tias de longe lhe mandavam, chegavam perfeitamente para pagar a meia dúzia de banhos tomados num mês, ou pelas sopas que lhe duravam a semana inteira.
O comodismo apoderou-se da pessoa que sempre foi, e acabou em alguém transparente. Os que passavam, já não a viam na janela, pois a sua presença era tão certa, que o seu rosto acabava colado nos vidros sujos. Simplesmente, aquela pessoa achava que a solidão tinha que fazer parte, mas ninguém lhe falou de que esse passo era só um passo oportuno da velhice, e não de quem tinha apenas vinte e poucos anos. É triste saber que ainda há gente que pensa que quem canta, reza duas vezes, e por isso passa dias a cantar, ou a pensar o quanto Deus é bom. Já ninguém acredita em fé. Ninguém tem que achar que faz parte. A rapariga cuja casa caía de velhice, acabou por morrer de desgosto, de infelicidade e insatisfação. É assim que muita gente morre. E tudo isso porque ainda acreditam que ‘faz parte’…
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quinta-feira, 3 de setembro de 2009
quinta-feira, 13 de agosto de 2009
Saudades
'Tento esmagar as saudades entre dois dedos a exercerem uma força brutal, quase tão grande como a falta que sinto de ti… Já tentas-te olhar-te ao espelho, pensar o quanto a minha vida seria diferente contigo por perto? Canta com toda a alma que ainda te resta, toda a alma que ainda posso sentir a passar-me na garganta como um bafo, um suspiro a fundo; como um coração parado em águas bravas sem os pés assentes no chão, sem ter como nadar, sem fôlego, sem corpo, só alma vazia, inundada através de palavras que deslizam como as tuas mãos no meu peito contraído de necessidade de te ver.Com os anos que passam, eu sinto obrigação em dizer-te o quanto era bom ter-te sempre aqui, cada vez que chego de malas nas mãos, sacos ao ombro e um sorriso esboçado no rosto só para tu poderes ver o quanto eu preciso de te abraçar e sentir que posso estar segura nos teus braços em que me perco como o tempo que já se foi… É triste saber que a espera que te faço todos os dias da minha vida, é o dia do nunca. ‘Não há inferno, não há céu’ por perto sem ti. O meu ciclo vicia-se na noite em que quase ficaste por perto. Mas não, agora preciso de chorar para saberes que sou a criança que há muito deixaste como uma caixa inq
uebrável. Com isto, eu sei que já nada do que possa vir me vai afastar da realidade como o facto de há nove anos te ter perdido. Não posso perdoar-te por muitas das noites me deixares com os teus sonhos, em que te vejo passar em alta velocidade só com um olhar. Chora para mim, diz-me que tens as saudades que eu tenho da ‘nossa’ vida. Lavo as mãos nas lágrimas que já se desvalorizaram por serem tão frequentes, e por isso se tornam tão banais.Acho que, no fundo, não sentes menos saudades do que a tua sobrinha que incansavelmente corre por te ver em mais um pesadelo com um acordar desgraçado de ansiedade por parecer simplesmente tão real. Dói saber que isto é só o começo, e que no mínimo vou ter que aguentar mais cinquenta anos na agonia de nenhuma das recordações que guardo, me podem acrescentar mais um pouco de tudo o que se desmorona todos os dias da minha vida. Estejas onde estiveres, quero que saibas que as saudades não me importam mais, mas por favor, imploro-te que me aconchegues sempre perto de ti, que um dos teus olhos controle todo o medo que tenho de ser mais uma vítima da tua imortalidade.'
- E vocês, sabem o que são Saudades? O que significa essa palavra? Que efeito causa em cada um...?
quinta-feira, 6 de agosto de 2009
Poesia
Hoje, caros seguidores do Fórum Jovem, apresento um tema que, a meu ver, é das melhores coisas do mundo: Poesia. Também denominada de Lírica, a Poesia é uma das sete artes tradicionais. “(…) arte é a poesia, a obra poema, o poeta o artífice.”Na minha opinião, Poesia corre-nos nas veias, ainda que muitos não saibam expressá-la. Para uns, é um modo de vida, de escrita, de pensar e agir. Para outros, apenas rimas soltas. Por vezes, serve de um modo de expressar sentimentos oprimidos dentro de cada um, que se revela muitas vezes em algo forte, agressivo, e que trespassa logo tudo cá para fora. Muitas vezes acaba por transparecer o poeta, que em linhas ou em folhas brancas passa tudo o que sente, de bom ou de mau.
No meu caso, que escrevo poesia ‘amadora’ há cerca de 3 anos, essa mesma serve-me de descargo de consciência, de desabafo, de opressão, de raiva muitas vezes também. Quando as coisas correm menos bem, a primeira coisa que faço é abrir o Word, e escrever tudo o que me vier à cabeça. A verdade é que, ao longo do tempo, vamos perdendo o jeito, ou a prática, nem sei. Há algum tempo que já não pego nas rimas, na musicalidade de um poema e escrevo como escrevia. Na generalidade, poemas falam de paixão, de mágoa e sentimentos, relativamente.
A Poesia é algo que se pode ajeitar a qualquer um, basta pegar em tudo aquilo que sentimos e trespassá-lo para um papel ou para um disco rígido. É claro que poetas amadores há muitos, que escrevem de vez em quando, que gostam porque sabe bem ouvir e ler, porque… Uma infinidade de coisas. Depois, há os outros que o fazem de profissão, que as rimas e o sentimento lhes corre no sangue, no corpo, e fazem dela o quotidiano. De grandes poetas, surgem grandes verdades, grandes emoções em grandes poemas. Em grande parte, os poemas fazem música, muitas vezes tocam quem lê para alem de quem os escreve. Muitos pensam que a poesia é algo que surgiu há relativamente pouco tempo, mas para os que pensam assim, a poesia já tem mais do que VIII (8) séculos. A partir do século XX (20), surgiram grandes e numerosos poetas da história como Florbela Espanca, Fernando Pessoa, Eugénio de Andrade, Alexandre O’Neill, Sophia de Mello Breyner Andresen, entre muitos outros. Ou seja, Literatura Portuguesa, para mim, é do melhor que temos, porque é o que pode ir ficando para as gerações futuras. É o que podemos dar aos que vêm, aos que vão e aos que ficam.
Para completar este post, apresentava-vos um pequeno poema meu escrito há uns tempos:
No meu caso, que escrevo poesia ‘amadora’ há cerca de 3 anos, essa mesma serve-me de descargo de consciência, de desabafo, de opressão, de raiva muitas vezes também. Quando as coisas correm menos bem, a primeira coisa que faço é abrir o Word, e escrever tudo o que me vier à cabeça. A verdade é que, ao longo do tempo, vamos perdendo o jeito, ou a prática, nem sei. Há algum tempo que já não pego nas rimas, na musicalidade de um poema e escrevo como escrevia. Na generalidade, poemas falam de paixão, de mágoa e sentimentos, relativamente.
A Poesia é algo que se pode ajeitar a qualquer um, basta pegar em tudo aquilo que sentimos e trespassá-lo para um papel ou para um disco rígido. É claro que poetas amadores há muitos, que escrevem de vez em quando, que gostam porque sabe bem ouvir e ler, porque… Uma infinidade de coisas. Depois, há os outros que o fazem de profissão, que as rimas e o sentimento lhes corre no sangue, no corpo, e fazem dela o quotidiano. De grandes poetas, surgem grandes verdades, grandes emoções em grandes poemas. Em grande parte, os poemas fazem música, muitas vezes tocam quem lê para alem de quem os escreve. Muitos pensam que a poesia é algo que surgiu há relativamente pouco tempo, mas para os que pensam assim, a poesia já tem mais do que VIII (8) séculos. A partir do século XX (20), surgiram grandes e numerosos poetas da história como Florbela Espanca, Fernando Pessoa, Eugénio de Andrade, Alexandre O’Neill, Sophia de Mello Breyner Andresen, entre muitos outros. Ou seja, Literatura Portuguesa, para mim, é do melhor que temos, porque é o que pode ir ficando para as gerações futuras. É o que podemos dar aos que vêm, aos que vão e aos que ficam.
Para completar este post, apresentava-vos um pequeno poema meu escrito há uns tempos:
RITMO
“Consigo ver nas tuas bolas de sabão;
Podia jurar que ainda somos nós,
Em pontas de canetas de feltro sós,
Vendidas por pedras pequenas de chão.
Obrigado pelas respostas que ainda escondes,
Pelas praias que ainda te faltam descobrir,
Onde nadas e onde te deitas em montes,
Que se afundam e abrem caminho para partir.
Confortável com os teus actos irreflectidos,
Que se transmitem em gotas de álcool;
Perdes a força no corpo já desgastado
Voltas mais tarde depois de o ar se ter esgotado.
Segues em frente, não páras nem recuas
Estão vastas as estradas, as velhas ruas.
Casas tu não encontras, ainda que as conheças,
Os olhos embaciados não querem ser o que pareças.
Bates o pé ao ritmo do quanto queres explodir,
Vai acelerando à medida para onde estás a ir.
Caminhos? Esses estão meio vazios por fora,
Não encontras o trilho para casa, já demora.
Ainda podemos ser nós sem pontos,
Sem interrogações nem reticências no meio.
Não há medos, não há história nem contos
A não ser que o que foi, não venha, não veio.”
<>
Beijinhos e abraços da cara feminina e mais jovem do Fórum,
“Consigo ver nas tuas bolas de sabão;
Podia jurar que ainda somos nós,
Em pontas de canetas de feltro sós,
Vendidas por pedras pequenas de chão.
Obrigado pelas respostas que ainda escondes,
Pelas praias que ainda te faltam descobrir,
Onde nadas e onde te deitas em montes,
Que se afundam e abrem caminho para partir.
Confortável com os teus actos irreflectidos,
Que se transmitem em gotas de álcool;
Perdes a força no corpo já desgastado
Voltas mais tarde depois de o ar se ter esgotado.
Segues em frente, não páras nem recuas
Estão vastas as estradas, as velhas ruas.
Casas tu não encontras, ainda que as conheças,
Os olhos embaciados não querem ser o que pareças.
Bates o pé ao ritmo do quanto queres explodir,
Vai acelerando à medida para onde estás a ir.
Caminhos? Esses estão meio vazios por fora,
Não encontras o trilho para casa, já demora.
Ainda podemos ser nós sem pontos,
Sem interrogações nem reticências no meio.
Não há medos, não há história nem contos
A não ser que o que foi, não venha, não veio.”
<>
Beijinhos e abraços da cara feminina e mais jovem do Fórum,
Danihell
terça-feira, 17 de março de 2009
Sugestão Cinematográfica: 100Volta
Bem, esta última semana tenho visto na televisão a publicidade a um filme português que irá estrear dentro de dias. Intrigado, fui investigar.
Então aqui têm pra vocês o trailer alargado do Filme:
Um filme de Daniel Souza que estreia este dia 19 de Março em 14 salas de Cinema Portuguesas. Acção, adrenalina, muito humor, sexo e palavrões de sobra... ou seja, a versão aportuguesada de "60 segundos".
De referir o facto de se tratar de uma Longa-metragem low-cost, e com o cheirinho que já deu quase me arriscava a dizer que estão de parabéns, o cinema português anda ávido não só de grandes produções mas sobretudo a precisar de algo novo, sem ser um "tvizada" ou mais um NBP produções ou algum filme do grande colosso Manuel de Oliveira.
Muitos dirão desde já que é mais um filme português recheado de nudismo, mas o facto é que, "na tigela do porco só se mete o que ele come"!
Vamos agurdar pra ver, um filme com Zé Galinha (Daniel Sousa) e companhia que promete.
Então aqui têm pra vocês o trailer alargado do Filme:
Um filme de Daniel Souza que estreia este dia 19 de Março em 14 salas de Cinema Portuguesas. Acção, adrenalina, muito humor, sexo e palavrões de sobra... ou seja, a versão aportuguesada de "60 segundos".
De referir o facto de se tratar de uma Longa-metragem low-cost, e com o cheirinho que já deu quase me arriscava a dizer que estão de parabéns, o cinema português anda ávido não só de grandes produções mas sobretudo a precisar de algo novo, sem ser um "tvizada" ou mais um NBP produções ou algum filme do grande colosso Manuel de Oliveira.
Muitos dirão desde já que é mais um filme português recheado de nudismo, mas o facto é que, "na tigela do porco só se mete o que ele come"!
Vamos agurdar pra ver, um filme com Zé Galinha (Daniel Sousa) e companhia que promete.
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